PÉ DE MÁQUINA DE COSTURA

19.2.18
A minha existência tem sido tudo, menos glamourosa, desde que estou a intervir numa casa em que alguns móveis estão a ser recuperados por mim. Como durante a semana a vida passa-se no escritório, e só me dedico aos móveis nos tempos livres, isto quer dizer que os momentos de ócio são raros e que os assuntos no blog andam menos variados, centrando-se essencialmente nos "antes e depois" das peças que tenho em mãos. Sorry, prometo que é só uma fase e que a programação eclética há-de retornar!
A peça da vez é um pé de máquina de costura. Lembro-me que foi um amigo nosso que nos deu, tínhamos nós acabado de casar. A mãe deste amigo havia tirado a máquina da base, para mandar eletrificar, ele sabia que eu apreciava coisas velhas e um dia apareceu lá em casa com o pé. Por uns tempos ainda serviu como mesa lateral do sofá mas rapidamente acabou na arrecadação e lá ficou por mais de 20 anos. Agora, nas obras deste apartamento, precisei de mais um móvel que servisse de bancada de casa de banho (no outro banheiro da casa usei o móvel de stencil) e lembrei-me do pé que, por uma coincidência incrível descobri ter exatamente as medidas que eu precisava: era suficientemente estreito para caber entre o vão da porta e a parede em que encosta e o seu comprimento, perfeito para não atrofiar o espaço da sanita. O que fiz no pé não vai arrancar de quem o vê um UAU enorme e super expressivo, pois apesar de eu gostar de transformar radicalmente, existem peças que apenas pedem limpeza. E acho que esta era uma delas. Pesquisei bastante no pinterest e instagram, pés deste tipo (com "pernas" em madeira e pedal de ferro), repaginados, mas francamente, as imagens que encontrei não me agradaram. Pintar apenas por pintar, para dizer que agora o pé ficou colorido e alternativo, não me diz nada. Optei então por tirar o verniz escuro e deixar a madeira no seu tom mel. No pedal em ferro, fiz o mesmo: palha de aço fina, deixar a cor de ferrugem à vista e cera no acabamento. Ainda não está terminado, falta a pedra mármore no tampo, falta o lavatório e falta o mais importante: assumir as suas novas funções!

BANQUINHO COM POMPONS DE FELTRO

10.2.18
A história deste banquinho é a seguinte: via várias vezes a senhora que limpa o prédio onde moro, periclitantemente equilibrada em cima do dito cujo, a polir as pedras das colunas que ficam na entrada. Um dia propus-lhe um negócio: eu arranjava-lhe um escadote em condições e ela, em troca, dava-me a banqueta. A resposta veio imediata: que se fizesse a permuta rapidamente, pois ela era pessoa baixinha, o banco curto, e estava mais do que evidente a dificuldade que tinha em aceder a cantos altos. E foi assim que eu ganhei um banco velho e sujo, e ela, um escadote novo e reluzente. A meu ver, troca mais do que justa! Depois seguiu-se a fase da ansiedade: lixar a tinta antiga para enfim descobrir as virtudes e os defeitos do banco. A coisa boa foi a sua estrutura, que se revelou robusta e bonita. A notícia má veio com a descoberta de um tampo minado pelo caminho dos bichos. Umas bases para pratos quentes, feitas em pompons de feltro, e que eu utilizava bem pouco em casa, foi a solução que encontrei para transformar o tampo agonizante num assento colorido e confortável. Desfiz as bases e colei uma a uma as bolas. A princípio julguei que a minha ideia iria resultar num banco frágil, quase só para enfeite, em que com o sentar, pompons se iriam soltar a pouco e pouco. Mas não, com doses generosas de cola de contato e os pompons bem chegados uns aos outros, obtive um "maciço" sólido e um banquinho de arrancar sorrisos!

COMER COM OS OLHOS

31.1.18
Já aqui disse várias vezes que não cozinho. E é verdade, a criatividade que tenho em certas áreas, falta-me em absoluto na cozinha. Tenho pena, pois nunca meus filhos poderão dizer que certo cheiro ou paladar lhes recordam a casa da mãe. Em contrapartida, adoro cozinhas (como arquiteta é mesmo a parte da casa onde mais gosto de intervir) e sou a louca das loiças! Esta última característica traz-me dois problemas: o primeiro de ordem logística, a casa não cresce e é-me cada vez mais difícil arranjar espaço para os serviços. E o segundo, um debate moral: estarei eu a gastar demais e a transformar-me numa acumuladora de pratos, pratinhos, copos, talheres, bowls, mini cassarolas, tábuas e afins? Para me consolar, costumava dar a mim própria a desculpa de que é o meu único vício e não tão nocivo assim, até que há uns dias, passou-me pelas mãos um artigo que dizia que investir em loiças é não só uma maneira de deixar a mesa mais atrativa mas também um conceito de alimentação saudável. É não olhar apenas para os nutrientes, ir mais além e enxergar na comida o prazer, as relações, as partilhas. E fez-me tão bem ler e pensar sobre isto porque de repente o meu único vício deixou de ser uma futilidade. Eu sou uma pessoa visual, sempre fui, como com os olhos, e assumo: venho carregada de pratos nas viagens, compro loiças online, herdo peças. Considero os meus serviços pessoais e intransmissíveis porque são descombinados e compostos por peças avulsas. Tem o prato branco mas também tem o colorido, os estilos são os mais diversos, os formatos e tamanhos variados. Traços que me permitem misturar e obter combinações menos óbvias à mesa. As fotos a seguir não são minhas.  A comida obviamente também não. Mas os pratos, são. O meu acervo é tão grande que volta e meia combino com a minha amiga de longa data, Lena, a mentora do projeto Seëds e empresto-lhe peças. São imagens que me enchem os olhos. Gosto de ver como a culinária da Lena torna os meus pratos tão fotogénicos, e aprecio a forma como as minhas loiças exaltam ainda mais as suas criações, já de si, tão atraentes.

DIZ QUE FUI POR AÍ

24.1.18
Este fim de semana fui à Bélgica. Já perdi a conta das vezes que visitei aquele país que trago no coração, de forma que minhas idas lá não são mais turísticas e sim puro deleite de passear pelas ruas, sem pressa e sem destino. O tempo foi curto para matar saudades e colher inspirações, mas nas minhas deambulações tropecei por elementos de outros tempos, que foram concebidos para usos específicos, mas que pelo seu forte apelo visual, metamorfosearam-se e acabaram por tornar-se protagonistas dos ambientes. E foi assim que os bules levaram uma camada de tinta spray e reinam agora dependurados do teto. Que gavetas solitárias transformaram-se em prateleiras. Que bancos ganharam pedais e a cadeira de cinema veio para a esplanada. Que o pé de máquina virou mesa. Que as malas de viajem converteram-se em apoio para plantas. Que o carrinho de mão, bem, esse não mudou muito de funções, mas tornou-se um belo recipiente para bolbos. Flanar pelas ruas, é das coisas que mais gosto de fazer. De tal forma que muitas vezes antes de sair de casa, aviso: "se alguém perguntar por mim, diz que fui por aí".

PLANOS PARA O QUARTO DAS FILHAS

16.1.18
Neste final de ano aconteceu algo sui generis lá em casa. Aproveitando a rara ocasião em que as duas filhas estavam presentes, uma vez que ambas estudam fora e é difícil coincidirem em Lisboa, dei-lhes um ultimato para que fizessem uma limpeza aos armários do quarto delas, separando a roupa que já não servisse ou quisessem. Saí de casa e disse-lhes que queria tudo limpo e organizado até ao final da tarde, quando eu voltasse do trabalho. Mas qual a minha surpresa quando ao regressar, dei com a entrada do apartamento atafulhada de sacos: as duas não só tinham separado a roupa para doação como ainda embalaram tudo o que se encontrava no quarto e que elas definiram como artigos infantis que nada mais tinham a ver com elas. Ensacaram bonecas, porta retratos, desenhos, bijuterias, CDs, livros, enfeites. E perante a minha cara de espanto, viraram o feitiço contra o feiticeiro e lançaram-me o repto: que eu me livrasse dos móveis coloridos, das secretárias de estudo que já não utilizam e lhes desse finalmente um quarto de adulto. Reivindicam madeira natural e cores neutras  (vá lá, depois de muita conversa vão deixar-me colocar um só elemento com cor) e uma zona de chill out. Eu sei que elas têm razão em pedir este refresh. São 22 anos de uma decoração que evoluiu com elas até uma certa altura mas depois parou. Parou porque elas não estavam cá. Parou por preguiça minha (confesso). Parou porque a maior parte do tempo o quarto tem estado fechado e esquecido. Planos, tenho alguns. Dúvidas, muitas. A única certeza é que quero começar por tirar o lambril de madeira verde, arranjar uma cor para as paredes na paleta dos cinzas, e tentar remodelar uma ou duas peças velhas que tenho guardadas. O resto, como sempre, confio no acaso, vai cair do céu e vai dar certo!

O quarto depois do desbaste:









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